quarta-feira, 26 de maio de 2010

VAMPIRO ROMÂNTICO ?




Habitante das trevas da morte, o vampiro é movido pela nos­talgia que sente em relação à vida. A saudade que o move o faz desejar a vida; sua solidão o faz querer com­panhia. Por isso, nas lendas folcló­ricas, ele volta para visitar os pa­rentes e vizinhos. Mas traz consigo a maldição: como não pertence ao mundo dos vivos, contagia com a morte aqueles que reencontra.

Esse é um tema recorrente desde que Bran Stoker publicou sua obra imortal, Drácula - sem dúvi­da, o vampiro mais famoso de to­dos os tempos. Em busca de Mina, provavelmente a reencarnação de sua antiga amada, Drácula deixa seu castelo na Transilvânia e vai a Londres. No entanto, tudo o que ele leva é desgraça e morte para aqueles ao redor de Mina.

O aspecto romântico do vam­piro encarna uma profunda rea­lidade humana. Sigmund Freud (1856 – 1939), tido como “Pai da Psicanálise”, afirmou que há duas forças que impulsionam a psique humana: o medo da morte e o de­sejo pela vida, expresso pela busca do sexo. Freud identificou esses im­pulsos com duas entidades da mito­logia grega: Eros, deus do amor, e Tanatos, deidade que representa a morte. Tal percepção é tão profunda que gerou o mito dos fantasmas que voltavam do Além para assombrar os vivos – o movimento da morte desejando a vida. Essas antigas len­das foram associadas a fenômenos da decomposição e acabaram ge­rando o vampiro, um ícone tão po­deroso que vem sendo desenvolvido e atualizado ao longo de eras. O desejo do vampiro pela vida é o nosso próprio desejo de resistir à morte ao buscar o romance e o sexo.

Muitas histórias narram o amor impossível entre essas criaturas e mortais. Nesse caso, quase sempre o vampiro se vê dividido entre a vontade de conferir à sua amada a imortalidade e a consciência da mal­dição que isso acarreta. Em alguns casos, o morto-vivo sente culpa até mesmo por ter de consumir sangue humano. É o bom vampiro.

Esse tema é central no romance Entrevista com o Vampiro, de Anne Rice. O anti-herói criado por Rice, Lestat, julga que tem direito de matar para existir. Ele é contrasta­do por Louis, seu relutante compa­nheiro, que sofre com a necessida­de de prolongar sua vida causando a morte de outros.

Na obra de Rice, os vampiros são quase sempre os personagens mais humanos, buscando respostas para as questões que assombram a humanidade. Quando Louis se encontra com Armand, o vampiro mais velho do mundo, então com 400 anos, ele se decepciona pelo fato de que Armand não descobriu nenhuma das respostas para as dú­vidas existenciais que o afligem.

De fato, o tema de fundo de muitas histórias de vampiro é o bom morto-vivo contra o mau. Essas duas forças que se opõem são, muitas vezes, retratadas como irmãos atraídos pela mesma mulher, que lutam um contra o outro atra­vés dos séculos. Um motivado pelo o amor e o outro, pela vingança.

Outra situação que o vampiro romântico tende a enfrentar é o desejo de defender sua amada do mal que existe dentro dele. Essa abordagem está presente na sé­rie de TV clássica, Dark Shadows, em que Victória Winters é a re­encarnação do verdadeiro amor do vampiro Barnabás Collins.

O aspecto romântico desta cria­tura também deriva, certamente, da disposição dos escritores e poe­tas que sistematizaram as antigas lendas folclóricas sobre o vampiro, transformando-o em uma figura li­terária que permanece através dos tempos. Esses escritores perten­ciam à segunda geração do movi­mento romântico, também conhe­cida como “ultrarromântica”. São autores como Lord Byron (1788 – 1824), Charles Baudelaire (1821

- 1867), e Castro Alves (1847 – 1871), que cultivavam o lúgubre e a atração pela morte. Bom exemplo disso é um dos mais famosos poe­mas de Byron, no qual ele descreve o crânio que seu jardineiro desen­terrou por acaso em seu jardim. Byron mandou revesti-Io com joias e o usava como caneco. O poema foi traduzido para o português por nenhum outro senão Castro Alves, igualmente famoso pela sua veia ultrarromântica.

É inegável que o vampiro tem um charme próprio. A atração exer­cida por ele, como a do herói góti­co, está na sua total solidão. Este morto-vivo encerra em si a beleza trágica do anjo caído, do amaldiço­ado, do maldito. Ele tem um poder inimaginável. No entanto, sua fra­queza – e por vezes sensibilidade – o torna extremamente vulnerá­vel. Por motivos óbvios, é incapaz de se comprometer totalmente com a heroína e deve esconder suas motivações. Quando a ama­da descobre os seus segredos – e em praticamente todas as historias românticas de vampiro isso acon­tece – , ela quase sempre reconhe­ce uma centelha de bondade no morto-vivo à qual o redime.

Mas o vampiro e sua amante têm que enfrentar uma questão extremamente difícil: o fato de pertencerem a mundos totalmente diferentes. A confiança se torna, então, a chave dessas histórias. A heroína coloca, em um gesto in­comensurável de amor, sua vida nas mãos de alguém com o poder de, em um momento de fraque­za, destruí-Ia. Em alguns casos, a amada, atraída pela promessa de vida eterna, entra no mundo de seu amante e se torna uma vam­pira. Em outras, aprende a acei­tar e a viver com essa condição, como no romance Midnight f(jss, de Nancy Gideon.

Um paralelo ao tema do vam­piro romântico e sua amada pode ser traçado com a lenda europeia A Bela e a Fera. Na história recolhi­da por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, uma bela donzela é mantida prisioneira por um prín­cipe que, de tão cruel, foi trans­formado em monstro por uma bruxa. A jovem acaba cativando o coração da fera, que se redime e se transforma, encontrando em si a humanidade que perdera. Da mesma forma, o vampiro, amal­diçoado pela sua condição de vi­ver em um limiar entre a vida e a morte – portanto, nem vivo nem morto -, descobre na mulher sua redenção. E, então, cai o pano .




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